A perspetiva de Pedro Pousão, S2Aqua CoLAB
Esta entrevista foi realizada com Pedro Pousão, investigador do S2Aqua CoLAB, no âmbito do projeto Blue Compass, promovido pela Rede Hub Azul Portugal, com base em insights do Hub Azul Dealroom, a principal plataforma digital de matchmaking para a inovação na economia azul.
Do seu ponto de vista, quais são hoje as principais inovações científicas e tecnológicas com maior potencial para aumentar a sustentabilidade da aquacultura?
Diria que há duas grandes evoluções muito marcantes. A primeira é o desenvolvimento da aquacultura em offshore, ou seja, em jaulas de alto mar. Estes sistemas exigem tecnologias diferentes das jaulas costeiras: alimentadores próprios, transmissão de dados, vigilância e até robôs que fazem o controlo entre jaulas e monitorizam a saúde dos peixes. Em países como a Noruega já existem jaulas em zonas com forte ondulação e correntes, com produções muito elevadas.
A segunda grande evolução são os sistemas RAS (Recirculating Aquaculture Systems). Estes sistemas permitem evitar a entrada de contaminantes, controlar a água de entrada e manter temperaturas ideais, sem exposição às variações ambientais. Isto reduz o impacto ambiental e permite produzir mais por metro cúbico, com densidades mais elevadas e maior previsibilidade.
Em paralelo, há uma evolução muito forte na robótica e na inteligência artificial, que permitem um controlo cada vez mais preciso. Hoje temos sondas que medem temperatura, oxigénio e cada vez mais também nutrientes, amónia tóxica e nitritos, gerando alertas automáticos. A integração desta informação permite gerir os sistemas quase em tempo real.
Que avanços considera mais relevantes ao nível da nutrição aquícola e dos ingredientes alternativos, tanto do ponto de vista ambiental como produtivo?
A nutrição teve uma evolução enorme ao longo dos últimos anos. Primeiro desenvolveram-se rações muito eficazes para truta e salmão, e depois esse conhecimento foi sendo adaptado para outras espécies, como a dourada e o robalo, com alimentos cada vez mais específicos.
Depois houve uma mudança muito importante: a substituição progressiva da farinha e do óleo de peixe, que eram produzidos a partir de pesca dedicada, sobretudo na América do Sul. Hoje quase não se usam, não só porque há menos disponibilidade, mas também pelo impacto ambiental.
Essa substituição não é simples — quando se troca proteína animal por vegetal é preciso ajustar os aminoácidos. Além disso, não se pode eliminar totalmente essas fontes, porque queremos que o peixe continue a ser uma fonte de ómega-3 marinho, essencial para a alimentação humana. Se retirarmos completamente essas matérias-primas, depois teríamos de recorrer a suplementos, o que não é o objetivo.
Também há muita desinformação, por exemplo em relação ao uso de soja. Muitas vezes utilizamos subprodutos, como a fração proteica que sobra após a extração de óleo, e não produtos diretamente destinados à alimentação humana.
Outro avanço muito relevante são os suplementos e compostos bioativos, muitos deles à base de extratos de algas, probióticos e prebióticos. Estes ajudam os peixes a resistir melhor a doenças, ao stress do transporte e às triagens, melhorando o bem-estar animal e o crescimento normal.
Há ainda a possibilidade de fazer uma espécie de “afinação” do produto final, enriquecendo as rações, por exemplo, em ómega-3, selénio ou iodo nas últimas fases de produção, para responder a necessidades nutricionais específicas de certos grupos de consumidores.
Um avanço muito importante foi a integração da analítica e da alimentação de precisão. Hoje os sistemas conseguem calcular em tempo real quanto alimento deve ser fornecido, quanto os peixes efetivamente comem e qual é a taxa de conversão alimentar. Isto permite ajustar automaticamente as rações, otimizando o crescimento e reduzindo desperdícios. É particularmente relevante porque a alimentação representa cerca de 40% dos custos de produção e é também uma das principais fontes de poluição quando mal gerida.
Que desafios técnicos, ecológicos ou de transferência de conhecimento continuam a dificultar a adoção de práticas mais sustentáveis na aquacultura?
Na transferência de conhecimento, a aquacultura tem uma vantagem: é uma atividade relativamente recente, com pessoas mais técnicas, o que facilita a adoção de novas práticas.
Hoje existem muitas regras e controlos, o que obriga a uma gestão mais rigorosa. Por exemplo, fala-se muito do uso de antibióticos, mas isso é uma falsa questão. Não é algo que se possa comprar livremente — tem de ser prescrito por veterinário, fica registado, e o peixe só pode ser vendido após cumprir os períodos de segurança.
O grande problema continua a ser a desinformação pública, muitas vezes alimentada por vídeos ou campanhas com outros interesses por trás.
Em Portugal há muita formação e investigação na área — universidades e centros trabalham fortemente na componente ambiental — e a mensagem de que a aquacultura pode ser bem controlada e sustentável está cada vez mais consolidada, embora nem sempre seja compreendida por todas as entidades.
Aqui os CoLABs têm um papel fundamental: fazem a ponte entre a indústria e a academia. Como são maioritariamente orientados pela própria indústria, garantem que a investigação responde a necessidades reais e que a tecnologia é transferida para o terreno.
Olhando para os próximos 5 a 10 anos, que mudanças estruturais ou prioridades considera essenciais para garantir a sustentabilidade e viabilidade da aquacultura?
Em Portugal, as mudanças estruturais são absolutamente urgentes. Um país que produz apenas cerca de 3% do pescado que consome e depende fortemente das importações fica numa posição muito frágil, sobretudo em termos de segurança alimentar.
Para desenvolver a aquacultura offshore precisamos essencialmente de duas coisas.
Primeiro, infraestruturas portuárias e logísticas: portos, marinas e áreas de apoio em terra. Muitas destas infraestruturas estão a ser desviadas para outros usos, o que bloqueia o desenvolvimento do setor.
Segundo, é essencial ter capacidade de pré-engorda em terra. Em Portugal o mar é muito exposto, não temos zonas protegidas como fiordes. Não faz sentido colocar peixes muito pequenos diretamente no offshore — é preciso criá-los em terra até atingirem um tamanho mais robusto antes de irem para o mar.
Além disso, o país precisa de um planeamento real a médio e longo prazo: decidir claramente que espécies queremos produzir, onde e de que forma. Não basta ter documentos com números; é preciso ordenamento efetivo e zonas preparadas.
Defendo também a criação de zonas industriais de aquacultura, já ordenadas e com condições base, para atrair investimento e evitar projetos que acabam por falhar por falta de enquadramento.
Por fim, é essencial haver alinhamento entre as instituições públicas. Muitas vezes há discursos ambiciosos, mas depois bloqueios sucessivos no licenciamento que acabam por travar projetos e afastar investidores.