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Pedro Pousão

Construir a Próxima Fase da Aquacultura: Entrevista com Pedro Pousão, do S2Aqua CoLAB

3 de março de 2026

A perspetiva de Pedro Pousão, S2Aqua CoLAB
Esta entrevista foi realizada com Pedro Pousão, Investigador do IPMA e Presidente da Direção do S2AQUAcoLAB, no âmbito do projeto Blue Compass, promovido pela Rede Hub Azul Portugal, com base em insights do Hub Azul Dealroom, a principal plataforma digital de matchmaking para a inovação na economia azul.
Do seu ponto de vista, quais são hoje as principais inovações científicas e tecnológicas com maior potencial para aumentar a sustentabilidade da aquacultura?  Diria que há duas grandes evoluções muito marcantes. A primeira é o desenvolvimento da aquacultura em offshore, ou seja, em jaulas de alto mar. Estes sistemas exigem tecnologias diferentes das jaulas costeiras: alimentadores próprios, transmissão de dados, vigilância e até robôs que fazem o controlo entre jaulas e monitorizam a saúde dos peixes. Em países como a Noruega já existem jaulas em zonas com forte ondulação e correntes, com produções muito elevadas. 
A segunda grande evolução são os sistemas RAS (Recirculating Aquaculture Systems). Estes sistemas permitem evitar a entrada de contaminantes, controlar a água de entrada e manter temperaturas ideais, sem exposição às variações ambientais. Isto reduz o impacto ambiental e permite produzir mais por metro cúbico, com densidades mais elevadas e maior previsibilidade. 
Em paralelo, há uma evolução muito forte na robótica e na inteligência artificial, que permitem um controlo cada vez mais preciso. Hoje temos sondas que medem temperatura, oxigénio e cada vez mais também nutrientes, amónia tóxica e nitritos, gerando alertas automáticos. A integração desta informação permite gerir os sistemas quase em tempo real. 
Que avanços considera mais relevantes ao nível da nutrição aquícola e dos ingredientes alternativos, tanto do ponto de vista ambiental como produtivo? 
A nutrição teve uma evolução enorme ao longo dos últimos anos. Primeiro desenvolveram-se rações muito eficazes para truta e salmão, e depois esse conhecimento foi sendo adaptado para outras espécies, como a dourada e o robalo, com alimentos cada vez mais específicos. 
Depois houve uma mudança muito importante: a substituição progressiva da farinha e do óleo de peixe, que eram produzidos a partir de pesca dedicada, sobretudo na América do Sul. Hoje quase não se usam, não só porque há menos disponibilidade, mas também pelo impacto ambiental. 
Essa substituição não é simples — quando se troca proteína animal por vegetal é preciso ajustar os aminoácidos. Além disso, não se pode eliminar totalmente essas fontes, porque queremos que o peixe continue a ser uma fonte de ómega-3 marinho, essencial para a alimentação humana. Se retirarmos completamente essas matérias-primas, depois teríamos de recorrer a suplementos, o que não é o objetivo. 
Também há muita desinformação, por exemplo em relação ao uso de soja. Muitas vezes utilizamos subprodutos, como a fração proteica que sobra após a extração de óleo, e não produtos diretamente destinados à alimentação humana. 
Outro avanço muito relevante são os suplementos e compostos bioativos, muitos deles à base de extratos de algas, probióticos e prebióticos. Estes ajudam os peixes a resistir melhor a doenças, ao stress do transporte e às triagens, melhorando o bem-estar animal e o crescimento normal. 
Há ainda a possibilidade de fazer uma espécie de “afinação” do produto final, enriquecendo as rações, por exemplo, em ómega-3, selénio ou iodo nas últimas fases de produção, para responder a necessidades nutricionais específicas de certos grupos de consumidores. 
Um avanço muito importante foi a integração da analítica e da alimentação de precisão. Hoje os sistemas conseguem calcular em tempo real quanto alimento deve ser fornecido, quanto os peixes efetivamente comem e qual é a taxa de conversão alimentar. Isto permite ajustar automaticamente as rações, otimizando o crescimento e reduzindo desperdícios. É particularmente relevante porque a alimentação representa cerca de 40% dos custos de produção e é também uma das principais fontes de poluição quando mal gerida. 
 
Que desafios técnicos, ecológicos ou de transferência de conhecimento continuam a dificultar a adoção de práticas mais sustentáveis na aquacultura?  Na transferência de conhecimento, a aquacultura tem uma vantagem: é uma atividade relativamente recente, com pessoas mais técnicas, o que facilita a adoção de novas práticas. 
Hoje existem muitas regras e controlos, o que obriga a uma gestão mais rigorosa. Por exemplo, fala-se muito do uso de antibióticos, mas isso é uma falsa questão. Não é algo que se possa comprar livremente — tem de ser prescrito por veterinário, fica registado, e o peixe só pode ser vendido após cumprir os períodos de segurança. 
O grande problema continua a ser a desinformação pública, muitas vezes alimentada por vídeos ou campanhas com outros interesses por trás. 
Em Portugal há muita formação e investigação na área — universidades e centros trabalham fortemente na componente ambiental — e a mensagem de que a aquacultura pode ser bem controlada e sustentável está cada vez mais consolidada, embora nem sempre seja compreendida por todas as entidades. 
Aqui os CoLABs têm um papel fundamental: fazem a ponte entre a indústria e a academia. Como são maioritariamente orientados pela própria indústria, garantem que a investigação responde a necessidades reais e que a tecnologia é transferida para o terreno. 
Olhando para os próximos 5 a 10 anos, que mudanças estruturais ou prioridades considera essenciais para garantir a sustentabilidade e viabilidade da aquacultura?  Em Portugal, as mudanças estruturais são absolutamente urgentes. Um país que produz apenas cerca de 3% do pescado que consome e depende fortemente das importações fica numa posição muito frágil, sobretudo em termos de segurança alimentar. 
Para desenvolver a aquacultura offshore precisamos essencialmente de duas coisas. 
Primeiro, infraestruturas portuárias e logísticas: portos, marinas e áreas de apoio em terra. Muitas destas infraestruturas estão a ser desviadas para outros usos, o que bloqueia o desenvolvimento do setor. 
Segundo, é essencial ter capacidade de pré-engorda em terra. Em Portugal o mar é muito exposto, não temos zonas protegidas como fiordes. Não faz sentido colocar peixes muito pequenos diretamente no offshore — é preciso criá-los em terra até atingirem um tamanho mais robusto antes de irem para o mar. 
Além disso, o país precisa de um planeamento real a médio e longo prazo: decidir claramente que espécies queremos produzir, onde e de que forma. Não basta ter documentos com números; é preciso ordenamento efetivo e zonas preparadas. 
Defendo também a criação de zonas industriais de aquacultura, já ordenadas e com condições base, para atrair investimento e evitar projetos que acabam por falhar por falta de enquadramento. 
Por fim, é essencial haver alinhamento entre as instituições públicas. Muitas vezes há discursos ambiciosos, mas depois bloqueios sucessivos no licenciamento que acabam por travar projetos e afastar investidores. 
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