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Iris Silva

Alimentação mais Inteligente para Peixes: a Importância da Nutrição Personalizada para Peixes

12 de fevereiro de 2026

À medida que a procura global por produtos do mar acelera e a aquacultura assume um papel central na alimentação de uma população em crescimento, o setor enfrenta um desafio decisivo: como aumentar a produção salvaguardando simultaneamente o bem-estar dos peixes, a integridade ambiental e a viabilidade económica. Neste artigo, Iris Silva, Investigadora em Biologia Molecular e Genómica no S2AquaCoLAB, explora de que forma a nutrição personalizada está a transformar a aquacultura através da ciência de precisão. Ao alinhar as estratégias alimentares com as necessidades biológicas específicas dos peixes, esta abordagem emergente oferece um caminho para melhorar o desempenho produtivo, reduzir o impacto ambiental e reforçar a sustentabilidade a longo prazo da economia azul.
E se fosse possível alimentar os peixes de forma a fazê-los crescer mais rapidamente, melhorar a sua saúde e bem-estar e, ao mesmo tempo, reduzir o impacto ambiental — tudo isto diminuindo os custos para os produtores? Esta já não é uma visão distante, mas uma realidade cada vez mais presente na aquacultura. À medida que a população mundial se aproxima dos 10 mil milhões de pessoas até 2050, prevê-se que a procura por produtos do mar aumente significativamente, sendo a aquacultura responsável por satisfazer grande parte dessa procura. Atualmente, mais de metade do peixe consumido globalmente já provém da aquacultura e não da pesca extrativa. Contudo, este rápido crescimento traz desafios: aumento dos custos de alimentação, crescentes preocupações ambientais e maiores exigências em matéria de bem-estar animal.
É por isso que a aquacultura de precisão está a ganhar destaque como um pilar da economia azul sustentável. Através da utilização de tecnologias inovadoras e conhecimento científico avançado, permite aos produtores otimizar a produção de forma mais inteligente e sustentável. No centro desta transformação está um conceito fundamental: a nutrição personalizada para peixes. O argumento é simples — estratégias nutricionais ajustadas são essenciais para melhorar o bem-estar dos peixes, aumentar o desempenho das explorações aquícolas e tornar a aquacultura ambiental e economicamente sustentável.
Porque é que a nutrição personalizada é importante
Tradicionalmente, as rações aquícolas têm sido formuladas com base em padrões generalistas, assentes em médias entre espécies ou sistemas de produção. Embora relativamente eficazes, estas fórmulas “tamanho único” ignoram frequentemente variáveis específicas como diferenças entre espécies, fases de desenvolvimento, condições ambientais ou até características particulares de diferentes lotes de peixes. O resultado pode ser uma menor eficiência alimentar, desperdício de ração e impactos negativos na saúde e no bem-estar dos peixes.
A nutrição personalizada representa uma mudança de paradigma na nutrição aquícola
  • Procura desenvolver estratégias alimentares adaptadas às necessidades reais das populações de peixes. Esta abordagem aumenta a produtividade, reduz custos e minimiza impactos ambientais — melhorando simultaneamente o desempenho animal.

  • A nutrição personalizada abre igualmente caminho a formulações mais sustentáveis. Ao ajustar com precisão o fornecimento de nutrientes às necessidades dos peixes, torna-se possível incorporar fontes alternativas de proteína e lípidos — como farinhas de insetos, algas ou subprodutos da indústria alimentar — sem comprometer o crescimento ou a saúde.

Esta abordagem direcionada reduz a dependência de farinha de peixe proveniente de pesca extrativa e de soja associada à desflorestação, garantindo simultaneamente o fornecimento adequado de aminoácidos essenciais e micronutrientes. A alimentação personalizada torna-se, assim, uma ferramenta estratégica não apenas para otimização ao nível da exploração, mas também para o cumprimento das metas de sustentabilidade do setor aquícola.
4 benefícios da nutrição personalizada
  • Maior competitividade económica: A alimentação representa até 70% dos custos operacionais na aquacultura intensiva. Pequenas melhorias na eficiência alimentar traduzem-se, por isso, em ganhos financeiros significativos. A nutrição personalizada permite reduzir o uso desnecessário de ração, melhorar as taxas de crescimento e diminuir a mortalidade, aumentando diretamente a rentabilidade. Ao alinhar o fornecimento de ração com as necessidades reais dos peixes, os produtores conseguem custos operacionais mais previsíveis e otimizados, menor desperdício e melhores margens de lucro.

  • Maior eficiência produtiva: O índice de conversão alimentar (FCR) — a quantidade de ração necessária para produzir um quilograma de biomassa — é um dos indicadores de desempenho mais críticos da aquacultura. Estudos demonstram que dietas ajustadas podem melhorar a eficiência de conversão alimentar em 10–15%, o que significa menos ração para o mesmo ganho de peso, ciclos de produção mais curtos e peixes que atingem o tamanho de mercado mais rapidamente com menos recursos.

  • Melhor saúde e bem-estar dos peixes: Quando as dietas são formuladas tendo em conta o desempenho e o estado de saúde, os peixes apresentam menos stress e menor incidência de doenças. Por exemplo, formulações com suporte imunológico podem reduzir em até 25% a ocorrência de doenças bacterianas, diminuindo a necessidade de tratamentos como antibióticos. Uma nutrição adequada previne ainda carências que podem afetar o comportamento, o crescimento e a qualidade de vida dos peixes. Ingredientes funcionais podem aumentar a resiliência a eventos stressantes, como manuseamento ou transporte.

  • Sustentabilidade e redução do impacto ambiental: Uma das principais críticas à aquacultura prende-se com a poluição por nutrientes em ecossistemas costeiros e marinhos. A alimentação personalizada responde a este desafio ao equilibrar com precisão proteínas, lípidos e micronutrientes de acordo com as necessidades reais dos peixes, reduzindo a excreção de azoto e fósforo em 20–30%. Isto ajuda a prevenir fenómenos de eutrofização e reforça a reputação do setor junto de consumidores cada vez mais conscientes do ponto de vista ambiental.

Tudo isto evidencia que a nutrição personalizada não é apenas uma inovação tecnológica — é uma necessidade económica e ambiental para o futuro de uma aquacultura mais sustentável.
Conclusão
A nutrição personalizada afirma-se como uma das ferramentas mais poderosas da aquacultura de precisão. Ao ultrapassar fórmulas alimentares genéricas, responde a exigências centrais da economia azul: melhorar o bem-estar dos peixes, aumentar a eficiência produtiva, reduzir impactos ambientais e reforçar a competitividade económica.
Ao integrar ciência, tecnologia e sustentabilidade, abre caminho para um setor aquícola mais competitivo e responsável. Seja no Atlântico, no Pacífico ou em pequenas explorações locais, a nutrição personalizada não é apenas um avanço técnico — é um compromisso com o futuro dos oceanos, com o bem-estar animal e com a segurança alimentar global.
Para os líderes do setor, a mensagem é clara: investir em estratégias de alimentação personalizada deixou de ser opcional e tornou-se essencial para a competitividade a longo prazo. A colaboração entre produtores de ração, fornecedores de tecnologia, investigadores e aquicultores será determinante para escalar estas inovações e transformar conhecimento científico em soluções práticas nas explorações em todo o mundo. Quanto mais cedo o setor adotar a nutrição de precisão, mais rapidamente desbloqueará ganhos de eficiência, assegurará rentabilidade e reforçará a sua licença social para operar num mundo de recursos limitados.
Ao mesmo tempo, impõe-se uma questão mais ampla: se a forma como alimentamos os peixes molda a sustentabilidade dos nossos oceanos e a qualidade dos alimentos que chegam ao nosso prato, que escolhas estamos dispostos a apoiar? A nutrição personalizada demonstra que a ciência pode alinhar bem-estar, eficiência e sustentabilidade — mas o seu pleno potencial depende da vontade coletiva de adotar práticas mais inteligentes e responsáveis. O futuro dos produtos do mar depende das decisões tomadas hoje. Continuaremos a alimentar os peixes da mesma forma de sempre, ou aproveitaremos a oportunidade para fazê-lo melhor?
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