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Manuel Melo

Portos: O camaleão industrial – Por que razão a inovação aberta é a próxima vantagem competitiva

16 de abril de 2026

À medida que os portos evoluem para se tornarem centros cada vez mais complexos e multifuncionais, a inovação já não se limita à eficiência operacional, mas estende-se aos setores da energia, da indústria, da mobilidade e da sustentabilidade. Neste artigo, Manuel Melo, Innovation Manager da rede Hub Azul, explora como a inovação aberta está a emergir como uma abordagem estratégica para os portos enfrentarem esta transformação — permitindo-lhes manter a competitividade ao mesmo tempo que assumem novos papéis através da colaboração com startups, a indústria e os ecossistemas de investigação.
Os Portos Estão a Evoluir Para Além da Logística
Tradicionalmente vistos como portas de entrada logísticas, os portos estão hoje a tornar-se cada vez mais hubs complexos e multifuncionais. Alguns ancoram atividade industrial de grande escala, como o cluster químico de Tarragona. Outros funcionam como nós de energia offshore, como Eemshaven, nos Países Baixos, apoiando operações eólicas e acolhendo infraestruturas elétricas significativas. Portos historicamente suburbanos ou periféricos, como Rønne, na Dinamarca, estão também a evoluir para o transporte de passageiros e ferries, impulsionados pela pressão habitacional e pela melhoria do design naval. Outros ainda especializam-se em turismo de cruzeiros (Funchal, Flåm), pescas e processamento alimentar (vários na Islândia e em Portugal), ou até logística de defesa, num contexto de crescentes tensões geopolíticas.
Apesar destas transformações, grande parte do discurso global sobre portos continua centrado na logística. Publicações influentes como Maritime Economics, de Martin Stopford, ou grandes conferências do setor tendem a focar-se em fluxos de carga, eficiência de custos, logística digital e combustíveis alternativos. O papel multidimensional dos portos continua sub-representado nos principais enquadramentos estratégicos.
Como Podem os Portos Abraçar Esta Complexidade Sem Perder Foco?
O receio é que, ao dispersarem o seu foco por múltiplas atividades, os portos percam a vantagem competitiva que lhes permite competir num mercado logístico altamente exigente. Como podem, então, manter-se eficientes e ágeis, enquanto integram novas funções?
A Inovação Aberta oferece uma resposta convincente.
Permite aos portos testar novos modelos operacionais — seja na energia, turismo, pescas ou tecnologia — sem a necessidade de criar equipas internas pesadas e lentas para cada área. Ao colaborar com startups, centros de investigação, empresas ou outros portos, conseguem explorar novos modelos mantendo-se ágeis, responsivos e eficientes em termos de custos.
Inovação Aberta nos Portos: Um Movimento em Consolidação
A Inovação Aberta já não é um nicho. Segundo a Mind the Bridge, 42% das empresas Fortune 500 adotam uma abordagem holística e estruturada à inovação aberta, sendo que 90% dessas recorrem a investimento em startups através de Corporate Venture Capital.
Os portos começam a acompanhar esta tendência — ainda que de forma desigual. Exemplos incluem:
O PortXL, lançado em Roterdão, que liga autoridades portuárias, operadores e carregadores a startups de alto crescimento na área da tecnologia marítima.
O Rotterdam Makers District, uma colaboração entre a Autoridade Portuária de Roterdão, a Universidade de Ciências Aplicadas de Roterdão e o Rotterdam Technical College, que acolhe empresas inovadoras, ensino técnico e infraestruturas de teste e investigação.
A Fundación Valenciaport, em Espanha, que integra a inovação na governação portuária pública, demonstrando que infraestruturas estatais também podem inovar com agilidade.
Portos de menor dimensão estão a colaborar através de plataformas como a AspBAN (Atlantic Smart Ports Blue Acceleration Network), apoiada pela Comissão Europeia, para atrair startups e desenvolver projetos-piloto, sobretudo em áreas como shipping sustentável e portos inteligentes.
Ainda assim, apesar do interesse crescente, muitos portos continuam a ter dificuldades em transformar inovação aberta em resultados concretos. Programas são frequentemente interrompidos, adiados ou reestruturados, e, juntamente com barreiras burocráticas e objetivos pouco claros, isso pode comprometer a confiança e o dinamismo.
Quatro Lições para Fazer Funcionar a Inovação Aberta nos Portos
1. Focar o Desafio
A inovação aberta é mais eficaz quando orientada para problemas específicos e estratégicos. “Vamos inovar” não é um ponto de partida útil. O porto pretende reduzir emissões durante a estadia? Melhorar a logística de cadeia de frio para o pescado? Simplificar o desalfandegamento para PME?
A clareza do desafio reduz desperdício — e aumenta o envolvimento das startups. Um âmbito demasiado alargado tende a gerar resultados pouco relevantes.
2. Tornar a Inovação uma Prioridade de Liderança
Os programas de inovação funcionam frequentemente em silos — liderados por equipas juniores sem acesso direto aos decisores. Isso compromete a sua credibilidade.
A liderança deve encarar a inovação como central para a competitividade a longo prazo, e não como um projeto secundário. Isso implica tempo dedicado, visibilidade e disponibilidade para adaptar estruturas internas de forma a permitir a experimentação.
3. Preparar a Implementação: Infraestruturas, Processos e Dados
As startups precisam de acesso real — não apenas a reuniões, mas a infraestruturas, dados e casos de uso. Se o objetivo é testar embarcações autónomas, onde e quando podem operar? Que cargas vão transportar? Que dados podem ser disponibilizados? Que tecnologias digitais podem ser utilizadas sem violar regras de contratação pública?
Isto implica simplificar processos internos antes do lançamento do programa de inovação. As startups não podem esperar seis meses para iniciar um piloto — precisam de respostas rápidas. A ausência de ativos claros ou disponíveis bloqueia a inovação desde o primeiro momento.
4. Capacitar e Dar Confiança às Equipas
Os portos são ambientes operacionais exigentes, com equipas formadas para segurança, regulação e logística — não para metodologias ágeis de startups. E isso é normal. Mas a hesitação interna pode comprometer os esforços de inovação se não for enfrentada diretamente.
Numa fase inicial, parceiros externos — como aceleradores ou consultores de inovação — podem apoiar a gestão dos programas. No entanto, com o tempo, é essencial integrar as equipas internas. A inovação aberta não se resume a captar ideias — trata-se também de construir culturas organizacionais preparadas para a mudança.
Um Investimento Estratégico em Agilidade e Confiança
A Inovação Aberta não substitui a excelência operacional — mas será determinante para identificar os portos que liderarão a próxima fase de transformação. À medida que as operações marítimas, cadeias logísticas e exigências de adaptação climática evoluem, os portos que dominarem a inovação irão diversificar mais rapidamente, responder com maior agilidade e moldar os mercados do futuro.
Mas, como qualquer esforço colaborativo, a inovação aberta assenta na confiança: entre startups e instituições, entre equipas internas e externas, entre estratégia e execução. Essa confiança deve ser construída — e protegida — através de transparência, alinhamento e roteiros claros.
Os portos que compreenderem isto desde cedo posicionar-se-ão não apenas como portas logísticas, mas como plataformas industriais dinâmicas para o século XXI.
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