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João Rito

Redefinir a Produção em Aquacultura: Entrevista com João Rito, da SEAentia

9 de fevereiro de 2026

A perspetiva de João Rito, Founding Partner da SEAentia
Esta conversa com João Rito, Founding Partner da SEAentia, foi realizada no âmbito do projeto Blue Compass, uma iniciativa da Rede Hub Azul Portugal, com base em insights do Hub Azul Dealroom — a principal plataforma digital que liga os stakeholders da inovação na economia azul.
A partir da experiência da Seantia, que limitações dos modelos tradicionais de aquacultura considera mais críticas e como é que a tecnologia pode ajudar a superá-las? 
Os modelos convencionais de aquacultura são essencialmente aquacultura feita em estuários e aquacultura em jaulas. 
O ponto principal é: nós queremos e vamos ter de produzir mais em aquacultura, para responder ao consumo mundial. Mas a ideia é conseguirmos fazer isso de uma forma mais responsável, com sustentabilidade ambiental e social, e também conseguindo produzir de forma intensiva respeitando o bem-estar animal. E isso é um desafio. 
É aqui que a tecnologia entra a nosso favor: para conseguirmos produzir mais e desenvolver mais projetos, mas sem estarmos tão dependentes das condições ambientais naturais, que são cada vez mais imprevisíveis. Ao mesmo tempo, precisamos de garantir a biosegurança necessária — ou seja, garantir que o animal é saudável para consumo — e que todo este processo seja feito de forma cada vez mais sustentável, gastando menos recursos e garantindo que sejam repostos a uma taxa mais alta do que são consumidos. Tudo isto sem comprometer o bem-estar animal. 
Os modelos tradicionais, em geral, não conseguem garantir tudo isto, mesmo que sejam muito utilizados por serem mais baratos. Dependem muito do meio ambiente e é difícil garantir bem-estar animal e controlo do processo. 
A tecnologia que vem resolver estes problemas é, sobretudo, a aplicação de tecnologia RAS (Recirculating Aquaculture Systems / Aquacultura de Recirculação). 
Com RAS, tu produzes num ambiente controlado: não estás dependente do ambiente natural, usas pouca água, consegues garantir biosegurança e, no geral, melhor sustentabilidade. Também consegues garantir o bem-estar animal, porque num ambiente fechado não estás sujeito às condições adversas que podem surgir no exterior. 
É um modelo escalável e pode ser usado para várias espécies, como por exemplo corvinas, salmão e até peixe plano (pregado). Mas quando queres cultivar uma espécie nova tens de conhecer muito bem a espécie. 
Há espécies particularmente difíceis. Por exemplo, o caso do atum: na prática, não consegues reproduzir o atum. O que acontece é que apanham os peixes ainda pequenos e mantêm-nos em jaulas, alimentados com restos de peixes. E estamos a falar de um peixe muito grande — portanto é um processo muito desafiante.
 
Que inovações tecnológicas considera determinantes para viabilizar a aquacultura à escala industrial (por exemplo: design de estruturas, automação, monitorização remota, integração com energias oceânicas)? 
Se formos ao básico: porque é que nós não produzimos mais? Uma das grandes razões é que o RAS ainda é muito caro. Tens bombas, circulação de água, bomba de calor… portanto, se queremos produzir mais, temos de conseguir baixar custos. 
E para baixar custos, uma das maiores prioridades é aumentar a eficiência energética. Por exemplo, melhorar a parte eletrónica dos sistemas RAS para consumirem menos e pensar em sistemas que consigam usar mais gravidade, para gastar menos energia. 
Depois, há um problema muito prático na produção: num tanque grande — por exemplo 1000 m³, tipo uma piscina olímpica — como é que tu sabes exatamente quanto peixe tens, qual é o peso e a média real? 
Neste momento, normalmente faz-se isso através de amostragens mensais, mas é um processo falível, exige muito da equipa e também é stressante e desgastante para os animais. 
Recentemente, começou a surgir tecnologia mais avançada — tipo vigilância subaquática — que permite analisar os peixes constantemente. O desafio é que tem de ser adaptada por espécie. 
Com este tipo de tecnologia, consegues detetar momentos de stress e perceber, por exemplo, quando os peixes não estão a comer. Pode existir um sistema automático que percebe quando os peixes estão stressados e ajusta a alimentação, como por exemplo reduzindo a quantidade de comida. 
Estas aplicações já existem noutros setores, mas na aquacultura muitas vezes não há investimento suficiente e faz falta mais transferência de conhecimento. 
Também há muita coisa que é muito específica por espécie. Por exemplo, como “convencer” os peixes a passar de um tanque para o outro — isto é um desafio real no processo produtivo. 
Outro ponto importante é o abate. Neste momento, a forma mais comum de matar o peixe é por asfixia ou com gelo, mas isso afeta muito a qualidade do peixe. A eletrução é vista como uma das melhores opções, mas ainda não é muito usada e a aplicação desta tecnologia ainda está a ser estudada e refinada. 
Existe também o Ikegime, que é uma técnica utilizada no Japão, mas ainda não existe propriamente tecnologia disponível e aplicada como uma solução industrial. 
Por fim, outro tema é a parte dos dados: tratamento de dados e aumento da rastreabilidade do peixe. Há projetos europeus (por exemplo o Sea2sea). Na prática, hoje sabemos de onde vem o peixe (o país) e como foi produzido, mas não temos detalhe, por exemplo da empresa — e essa informação ainda não é obrigatória. 
Aqui pode entrar tecnologia como blockchain. 
E há também potencial de monetização de dados. Por exemplo, perceber indicadores como o cortisol nos peixes: se eu consigo detetar isso, consigo perceber melhor níveis de stress, e isso pode ter aplicações importantes. 
Que desafios técnicos, regulatórios ou de investimento continuam a ser os maiores entraves à adoção em larga escala de soluções offshore? 
(resposta indireta a partir dos pontos anteriores) Um dos grandes entraves continua a ser o custo e a necessidade de tecnologia altamente eficiente para garantir bem-estar animal e monitorização. A aquacultura offshore pode ser sustentável em teoria, mas na prática continua muito dependente de condições ambientais e exige uma evolução tecnológica e investimento para ser mais controlada e escalável. 
 
Como vê a evolução do setor da aquacultura nos próximos 5 a 10 anos, em termos de localização da produção, modelos de negócio e integração com outras atividades da economia azul? 
 (resposta indireta a partir dos pontos anteriores) Eu acho que o setor vai caminhar para modelos em que conseguimos produzir mais, mas com mais controlo, mais biosegurança e maior sustentabilidade, com forte aposta em tecnologia — tanto em sistemas RAS como em digitalização, automação, monitorização e rastreabilidade. Os dados vão ter cada vez mais peso, não só para gestão interna, mas também para transparência e rastreabilidade do mercado. 
 
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